O par EUR/USD voltou a apresentar tendência de baixa após um breve pico na marca de 1,1668. O sentimento do mercado voltou a ficar sombrio e cauteloso. O recente otimismo entre os traders dissipou-se, sendo substituído por cautela e pessimismo. Suporte adicional ao dólar veio dos dados do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA, divulgados na quarta-feira, apesar de seu caráter contraditório.
Por um lado, a divulgação do CPI foi neutra: todos os seus componentes coincidiram com as previsões. Por outro, o relatório trouxe vários sinais importantes que não devem ser ignorados.
Em termos estritamente numéricos, a situação é a seguinte: o índice geral de preços ao consumidor em fevereiro permaneceu no nível de janeiro, em 2,4% na comparação anual. Na base mensal, o indicador acelerou ligeiramente, de 0,2% para 0,3%. O CPI núcleo, que exclui alimentos e energia, também se manteve no nível do mês anterior, em 2,5% na comparação anual. Porém, na base mensal, o número desacelerou ligeiramente, de 0,3% para 0,2%.
O primeiro sinal importante do CPI de fevereiro é que o componente de energia voltou a impulsionar a inflação geral: o índice de energia subiu 0,6% mês a mês, e os preços da gasolina aumentaram 0,8%. Contudo, é essencial lembrar que o relatório cobre o período anterior ao início das ações militares no Oriente Médio, de modo que a alta registrada em fevereiro pode ser apenas uma prévia do que os consumidores podem enfrentar em março.
O segundo sinal para os traders do EUR/USD é o crescimento sustentado da inflação no setor de serviços. Em particular, os serviços médicos subiram 0,5% mês a mês, e as passagens aéreas aumentaram 1,4%. Isso indica demanda persistente, apesar da incerteza econômica e geopolítica.
O terceiro sinal atua como contraponto, refletindo pressões desinflacionárias: o índice de aluguéis cresceu apenas 0,1%, a taxa mais lenta desde 2021. A categoria Housing (habitação) também mostrou desaceleração, de 0,3% para 0,2%. Esse pode ser o sinal desinflacionário mais relevante dentro da estrutura do CPI, já que a habitação é um dos maiores componentes do índice, representando cerca de 35% do CPI geral e aproximadamente 40% do núcleo.
Para efeito de comparação, em 2022–2023 o crescimento mensal dessa categoria era de 0,6–0,8%, o que significa que as taxas atuais são duas a três vezes menores do que nos picos anteriores. Segundo vários analistas, se esse componente mantiver o ritmo atual, a inflação núcleo anual poderá cair para o nível-meta de 2% em poucos meses.
Assim, o relatório do CPI não pode ser classificado como hawkish, embora tenha confirmado a estagnação da inflação anual. A divulgação mostrou-se bastante contraditória e, diante do decepcionante NFP de fevereiro, parece mais dovish do que o contrário.
Ainda assim, os traders do EUR/USD interpretaram o relatório momentaneamente a favor do dólar. Contudo, a moeda americana vem ganhando impulso por razões completamente distintas. Mais uma vez, a geopolítica fortaleceu os touros do dólar, mantendo os participantes do mercado em estado de alerta.
Vale notar que o recente surto de otimismo foi impulsionado por declarações de Donald Trump de que a guerra no Irã terminaria "em breve" e que, portanto, o mercado de petróleo se estabilizaria. Nesse contexto, o interesse por ativos de risco aumentou, permitindo que os compradores do EUR/USD empurrassem o par para a região média de 1,16.
Entretanto, as declarações de vitória de Trump foram contestadas pelo Irã, cujos representantes emitiram sinais diametralmente opostos. Teerã declarou estar preparado para uma guerra de atrito prolongada e pediu preparação para preços do petróleo em torno de US$ 200 por barril. Além disso, as forças armadas da República Islâmica anunciaram que não se limitarão a ataques meramente retaliatórios, mas conduzirão ataques "um após outro", inclusive contra petroleiros civis que trafeguem pelo Estreito de Ormuz. Vale lembrar que três embarcações foram danificadas no estreito na quarta-feira.
Israel também refutou as declarações de Trump sobre um fim rápido do conflito no Oriente Médio. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que atualmente não há prazos para o término da guerra e que os ataques ao Irã "continuarão enquanto for necessário" e não cessarão "até que os objetivos sejam alcançados".
Diante de declarações desse teor, os mercados concluíram que o conflito está a entrar numa fase prolongada, e as observações de Trump sobre um fim rápido da guerra parecem mais expressar desejo do que representar um cenário realista. O sentimento otimista se converteu em pessimismo, e o dólar, um ativo de refúgio, voltou a registrar aumento da demanda.
Tudo isso indica que a tendência de baixa do EUR/USD é justificada e bem fundamentada. Repique corretivos podem ser vistos como oportunidades para abrir posições de vendas. O alvo mais próximo para o movimento de baixa é o nível de 1,1530 (linha inferior das Bandas de Bollinger no gráfico diário). Um rompimento abaixo desse patamar abriria caminho para o suporte principal em 1,1470, onde a linha inferior das Bandas de Bollinger coincide com a borda superior da nuvem Kumo no gráfico semanal.